Um sonho cheio de detalhes líricos: a neve que não esfria, os traços azuis na arquitetura romântica, os sorrisos e lágrimas que não mancham a maquiagem, o mundo onde todos tem a chance, dentro da tristeza, de serem felizes por um momento eterno. Ela não encontrava seu momento eterno, mas sonhava a todo tempo.

Um dia ela disse a seu amigo que ele jamais se arrependeria de suas lembranças. Por um momento ele a teve plenamente. Por mais que aquele momento não fosse perfeito, por mais que logo depois todo o sonho se destruiria e viria a maior dor do mundo, ele a teve. E isso, meus caros, isso não se apaga. O momento eterno. O momento em que o amor é real e sem limites. Eterno.

Mas ela chorava por saber que nunca teria este momento somente para si. Chorava por saber que aquele outro jamais seria dela daquela forma, que jamais tinha sido. Não tiveram nenhuma noite em que levaram as conseqüências até o que seria um momento eterno. Não conseguiram se entregar a um simples olhar o qual pudessem dizer que era seu momento, sem jamais ter de relembrá-lo, sabendo estar guardado por certo. Tudo o que viveram, não deixaram ser eterno.

E o que é que havia os impedido, os separado? Nada mais parecia fazer sentido. Ela via os outros ao seu redor, vivendo momentos eternos pelos quais chorariam noites. E ela chorava por não ter tido este momento.

Um sonho cheio de detalhes líricos: o vento esfriava, o mundo ficou escuro e feio, não conseguia ver nada direito e a maquiagem estava borrada. Sem chance, dentro da tristeza, somente sentia um vazio com o qual teria de aprender a viver. Nenhum momento eterno jamais teria para si. Que vida era essa, perdida na falta de eternidade?

Às vezes parece que não tem o que dizer, que palavras não expressam, não falam nada. Parece que perdemos a noção, os pequenos detalhes, o como explicar. Mas, pior que isso, temos a certeza de que não há vocabulário no mundo inventado para explicar.

Porque simplesmente ninguém quer ouvir. São coisas que queremos esquecer, guardar para nunca mais lembrar. Não se pode falar, não se quer ouvir. Coisas muito além do que a alma crê que pode aguentar.

Tenho vivido todas as possíveis ramificações e detalhamentos da dor. Da angústia. Coisas que pensei que nunca sentiria, que pensei que talvez até não existissem, tem me dilacerado em pedaços e transformado minha paz em lágrimas.

Nunca mais irei subestimar a dor.

Goodbye, dears. Volto quando o mundo voltar a ter cores.

Aristóteles dizia que as coisas tendem à perfeição (ideias). Concordo, em parte. E acho que aí está a “queda/quebra” humana: sempre tender. Mas esta ideia leva as coisas ao caminho rumo a perfeição. Acho que há um duplo caminho constante, nos quais as coisas mudam. Ora vem, ora vão. Ora afastamo-nos de Deus, ora nos aproximamos. Mas nunca chegamos lá, apesar de toda a esperança… Por enquanto.

Já o amor não acho que tende a ser amor perfeito, platônico. (Platão, Aristóteles, ahn? deixa pra lá) O amor confuso, bagunçado, é tão perfeito assim. É tão linda a dúvida. É tão… humano. Ensina humildade. Mas estou falando do projeto primeiro do humano, o perfeito, e não o humano decaído atual.

Já discordo de quem diz não haver perfeição. De onde, então, teria surgido o conceito? E a ambição? Uma ideia surge de algo que, se não for ela mesma, aponta para ela no fim do túnel. Além do mais, Deus colocou o desejo pelo divino dentro de nós. Ou seja, o desejo pelo perfeito. Só esquecemos que, na maioria das vezes, transformamos tudo isso em algo que não tem nada a ver e é totalmente imperfeito.

Daí, buscamos pro lado errado. Por enquanto.

- Mais pra baixo. Na terceira gaveta aí em baixo. Abre, ó. Tem um compartimento secreto aí do lado direito no fundo. Pode mexer, remexer, descobrir tudo o que estava guardado. Pode mudar, também, o que você quiser. Só vai com calma que é difícil rever algumas coisas. Dói lembrar dos erros, não dói? Muita coisa feia de ver guardada aí, não? É…

Eu precisava lhe mostrar isso, por mais que eu morra de vergonha. Precisava, pois ainda estou entendendo que essa parte também é sua. Ainda estou entendendo que não posso entregar meia de mim, devo me entregar por inteiro, com últimas gavetas e compartimentos dentro do pacote.

Mas tá machucando bastante remexer nestes papéis. Eles já estavam tão incrustados na última gaveta, no compartimento secreto, que deixaram de parecer importantes. Mas foram erros que determinaram todos os passos do meu caminho.

Erros. Problemas. Exageros. Passado. Presente. Meu caminho desde a pré-adolescência para cá. Meu caminho errante, torto e escondido. Guardei bem secretamente para mim todas estas escolhas, até que agora tenho de ver você folheando-as todas de novo. Dói bastante, sabia?

Mas, mudar? Reescrever estes papéis? Tem certeza? Vou tentar, eu entendo, mas não sei como. Não sei como caminhar sem esses papéis escondidos, não sei como mudar cada letra deles, não sei como aguentar essa dor. Não sei como dar meia volta, chegar no ponto de partida, e seguir pelo caminho certo. Não sei.

Cara, dói. Mas não fecha a gaveta, não. Vamos levar isso até o fim.

Me ajuda, vai, por favor! Aliás, este compartimento secreto agora também é seu, compartilhado e modificado de acordo com sua vontade.

Nova,

feita em folha

de árvore

que seca e cai;

que nasce mais uma vez,

verde.

 

Feliz,

moldada,

por amor.

Transformada

em bem-aventurada,

processo de dor.

 

Angustia,

“não consigo”.

Cura,

“é um pedido”.

Agora, busco,

procuro,

faço tudo para

o transformador,

autor, salvador,

divino.

 

motivação nova,

alma nova,

calma nova,

vida nova:

prova.

Eu acredito em encontros. Tenho pensado nisso ultimamente. Acredito em pessoas, encontros e relacionamentos.

Acho que isso vem desde janeiro, no IPL. Não a importância depositada em relacionamentos, mas a percepção disso. Em março, nas comemorações de St. Patrick, encontrei umas bixetes da Cásper de manhã. Fui conversar com elas e mencionei alguns nomes que, certamente, elas deveriam ao menos saber quem era. Uma delas explicou o desconhecimento: iria se mudar para outra cidade e transferir o curso por conta de um novo emprego de seus pais. Não queria fazer amigos, não queria mesmo. “Não quero ter de me separar das pessoas”, disse.

Então, o que vale? Não sofrer pela distância ou perder a chance de ter alguns amigos? Eu opto pelo sofrimento. Tenho vários amigos que moram longe. Amigos mesmo, cujo encontro com eles mudou um dia, um mês, minha vida. Amigos da Itália, Nova Zelândia, Jordânia e Japão, por exemplo (foi pela ABUB, pessoal, não pela internet). Mas relações de verdade, que realmente se mantém.

Essa é outra coisa que aprendi. Achava que era fácil manter os relacionamentos, ou que era fácil que eles sumissem e acabassem. Sem muito contato, todavia, ainda vejo ótimos amigos se manterem assim. Duas cartas por ano, que seja, mantém uma amizade verdadeira e profunda bem viva. O que vale é a lembrança e o sentimento de amor. Yes, baby, amizade é amor.

Tenho lido alguns livros sérios de teologia que têm me apresentado uma nova visão sobre os relacionamentos. O tão-falado Deus trino, aquela história de três-em-um e um-em-três, é o relacionamento perfeito, eterno e único. O relacionamento completo e completante. É este relacionamento divino que devemos ter com os outros, formando o corpo divino desta forma, perfeitamente unido, perfeitamente completo, perfeitamente único.

Portanto, tenho acreditado em encontros. O encontro com uma pessoa no ônibus, uma senhora na rua, uma amiga no Metrô. O encontro de alguém em meio a uma viagem, de amigos numa cidade de interior, de conhecidos no meio da rotina. O encontro de alguém que de repente tem muito mais com você do que você imagina. O encontro com alguém completamente diferente. O encontro frente a um copo no bar, um encontro na biblioteca, um encontro com vários outros amigos. Encontros que fazem a diferença, controem relacionamentos e marcam toda uma vida.

Encontro de amizades, encontro de pessoas, encontros sinceros, puros e completos. Fazem de uma simples vida, um pedaço de um corpo maior. Eu acredito em encontros.

Arranjei um emprego! Viva! Ou Aleluias como diria o condutor da Auto-escola! Aliás, finalmente, minha carta de motorista vai sair! É, caros, as coisas estão mudando por aqui.

Tenho lidado com muita coisa interessante e muita coisa estranha no novo trabalho. Estou trabalhando com assessoria de imprensa, gostando, apesar de tudo. Aprendendo bastante, como sempre, e se isso está acontecendo, pronto, sei que estou no lugar certo – ao menos por enquanto.

Espero que entendam o relapso deste lado de cá, com isso tudo. Agora, com a gruipe suína fazendo a faculdade adiar as férias, talvez eu até apareça mais por aí.

Vejamos…

Fui cortar o cabelo (de vez em quando é necessário para me sentir mais nova, refresh…tipo um refresco de mim mesma). Mas não consegui largar a mania: corte diferente, olhar atento a todos.

Uma jovem tingia o cabelo de uma turista, americana, provavelmente. Os próprios cabelos da moça eram artificiais. Nas pontas as suaves e famosas mechas californianas que caiam perfeitamente nos falsos cachos. A falsidade soava a perfeição, leveza e beleza (como é estranho associarmos perfeição a falsidades). Trabalhar em um salão de beleza deve exigir um cuidado maior de suas próprias mechas.

Mas a japa, outra trabalhadora do local, não resiste a sua personalidade, não cuida muito bem do seu cabelo. Ainda assim a artificialidade toma conta dela. Lavados normalmente e secos normalmente, os cabelos tem suas pontas tingidas de azul. Sua excentricidade apavora alguns e conquista a simpatia de outros. Corajosa.

O cabeleireiro não é gay, ao contrário do que todos acham. E corta muito bem. Não faz sucesso por que trabalhava com o pai, mas depois de voar sua vida profissional esta levantando aos poucos. Não tem trejeitos, nem chiliques. É heterossexual e casado, mas corta muito bem e bem modernamente.

Uma senhora encaixa no padrão “perua”. Ela dá a impressão de realmente querer que todos vejam: seu cabelo é tingido. Loiro bem falso, um amarelo quase laranja. E as sobrancelhas bem pretas, finas e pretas. As rugas ficam exaltadas com a grande diferença de cor. O lápis no olho é muito forte, ressalta a olheira e a bolsa em baixo do olhar superior. Não é bonita, mas crê que é. Não tem personalidade, mas finge ter. É o estereótipo orgulhoso de assim ser enquadrado. Sai sem agradecer.

Moças com bons cabelos, simpáticas e inesperadas, um profissional fora do padrão e uma senhora dentro do padrão. Os salões de belezas são centros de personalidades diferenciadas, estranhas, fortes e fracas. E toda mulher passa por lá como um ritual sem olhar nas pessoas importantes que tem lá dentro reparando seus detalhes. Sou tão anormal assim por ser tão observadora?

Ah, e cortei curto, de novo.

Cirque du Soleil vai voltar ao Brasil em 2009. Eu diagramei para o Toshio uma matéria sobre isto… Quando estava procurando as fotos foi que descobri: o espetáculo, Quidam, é o primeiro que eu assisti e o que garantiu minha paixão tanto pelo Cirque du Soleil, quanto por artes circenses no geral. Paixão que não acaba mais.

O circo inovador e contemporâneo faz 25 anos este ano. E eu não sei quando que eu comecei a ver os espetáculos na HBO. Nem lembro o que me encantou primeiro. Mas, para mim, o circo e toda sua aura misteriosa e mágica adquiriu um sentido absurdo no primeiro vídeo que vi.

Tinha ido ao circo quando criança, sim, mas nada me encantou tanto quanto esses espetáculos. Os palhaços são clowns, outro conceito, e bem mais sutis. Mágica? A mágica se torna em performances surpreendentes. Não preciso de truques para gostar, mas preciso de algo impossível. Artistas que parecem não ter osso, outros parecem voar, outros tem mais delicadeza do que força, mas podem aguentar todo peso do mundo. Alguns ainda se parecem com máquinas, porque para mim um ser humano não pensa tão rapidamente. A magia, naquela mistura de circo com teatro e música, se tornou tudo o que acontece no palco. Encantador.

Eu quero essa vida de circo para mim. Sei que são horas de treino e muita dor. Sei que é um esforço enorme, sem contar com o preparo de maquiagem (que eu não gosto) e a pressão de não poder errar nadinha. Mas fazer tudo aquilo, com aquela doçura e beleza, e fazer parecer impossível mas fácil, é compensador. Eu queria poder escolher esta vida para mim.

Mas não posso. Por que? Simples, não tenho esta escolha. Fiz ginástica olímpica e rítmica quando pequena, mas pouco evolui (claro, era de graça, ninguém se importava se eu queria seguir carreira ou não). Depois fiz vários esportes diferentes (tênis, futebol, hand, natação…). Já passada a fase de mudança de corpo, fui fazer ioga e ballet. Mas aquela força, aquela elasticidade, e aquela habilidade que eu tinha quando pequena e que eu poderia manter e usar para fazer circo (leia-se: acrobacias aéreas, como tecido) foi-se embora. Posso até me esforçar, mas já se foi o tempo em que eu poderia escolher entre esta vida ou a vida circense. Agora só pode se tornar em hobby. Triste, para mim.

Ainda assim o palco me encanta. O circo me encanta. Essa magia toda. Não dá pra escoder tamanho encanto e tamanha admiração. Não dá pra fingir que não tenho este sonho enorme dentro de mim. Impossível, porém persistente. E o sonho continua…

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