“Se você continuar brincando assim comigo, vai ter uma filha com os meus olhos para nunca mais esquecer de mim”, disse minha vó com seu pesado sotaque ao meu pai, poucos meses após o casamento com minha mãe. Alguns anos depois, minha irmã nasceu: ufa, olhos verdes. Ou seriam castanhos? Mel, por via das dúvidas. Depois, veio meu irmão: pretos, feito jabuticaba! Oba! Infelizmente estes olhos pretos se fecharam pouco tempo depois…
Mas ele não se cansou. Mesmo depois de tanto tempo, meu pai continuou brincando com minha vó, fazendo piadas. A fúria de sogra fez da promessa uma praga verdadeira. Nasci com os olhos de minha avó, a única entre os nove netos com olhos azuis. A única com os olhos da avó, da Grannie.
E aquelas duas bolinhas azuis nunca foram uma felicidade, pra ser sincera. Falha quem pensa que ter olhos azuis é uma bênção, uma coisa linda. Eu odeio estes olhos azuis de verdade.
Quando pequena, ao passear no shopping, no parque, na rua, sempre vinham aqueles desconhecidos, cheios de intimidade, elogiar… os olhos. Nem viam meu rosto, nem olhavam para quem eu era, e logo se espantavam com a cor dos olhos. Não viam nem sequer meu olhar, só a cor. Passei a odiar esta praga, considerá-la como um chamariz desnecessário, que fazia com que as pessoas não me percebessem, só percebessem a característica. Não gostava de chamar atenção por isso, queria que vissem quem eu era.
Passado alguns anos de raiva daquela cor azul, viajei com alguns amigos. Numa longa conversa com um novo conhecido, ele revelou “fiquei impressionado com o seu olhar”. “Sabe qual é a cor dos meus olhos?”, perguntei virando a cara para o lado oposto, “não reparei, são verdes? só reparei no teu olhar, achei forte, marcante…”. Me impressionei. Pela primeira vez alguém não elogiava a cor dos meus olhos, mas alguém tinha olhado para mim e reparado no meu olhar.
Outro amigo, um baiano arretado, um dia disse antes de me conhecer: “tenho medo daquela menina, o olhar dela revela tudo que ela pensa, até a raiva e decepção”. Um conhecido, presente no momento, disse “são azuis, não são?… nossa, não olha assim, não, o que eu fiz?”. Pois, é…
E, certa vez, uma pessoa para quem eu contei sobre o comentario baiano me perguntou alguns minutos depois, em ocasião um pouco diferente: “nossa, eu entendi teu amigo! espero que tenham sido os poucos que tiveram acesso a este olhar, é profundo demais…! uau!” Sorri, é claro, com os olhos.
O olho azul foi perdendo campo, e o olhar foi aparecendo. E pelos elogios eu gosto ou odeio essas duas bolinhas. É pelo que dizem que eu sei se a pessoa me vê ou se a pessoa olha de relance para mim. Sei se reparam no clichê ou se reparam em mim.
Mas nada mudará a natureza deste olhar. No fim das contas, ele nada mais é que uma praga de avó, uma lembrança para meu pai de que não herdei somente a cor dos olhos, mas também a personalidade teimosa, orgulhosa e forte.
