Fazendo duas faculdades ninguém consegue respirar direito… Eu consegui por muito tempo, por sinal, agora precisava descansar. Fiquem avisados: não sei se fiz a coisa certa, mas tranquei meu curso de Letras (Inglês e Português) na USP. Cidade Universitária que vai fazer uma puta falta na minha vida, e que fez uma enorme diferença nela até agora. Eu vou voltar, já está decidido, mas o tenso é pensar nas consequencias… Algumas destas, por sinal, que pesaram na decisão. Embora muitos disseram que eu não deveria pensar nisto, não há como evitar, a melhor qualidade da USP será a que eu mais vou sentir falta e foi a que mais atrapalhou minha decisão. Meus amigos uspianos.

Nos primeiros dias de aula, ainda bixos, não entendíamos o que eram aquelas siglas doidas. EL, IEL, IEC e IELP. Esta última, Introdução aos Estudos da Língua Portuguesa, era a mais simples e inútil de todas, (minha opinião). A professora, que eu não vou mencionar seu nome por respeito, parecia aquelas tias da 3a séria (nossa, hoje em dia já é “quarto ano”). A aula era tediosa e até os alunos mais nerds e estranhos abandonavam-na ao assinarem a lista. Às vezes até a professora abandonava-a.

No meio da Letras as pessoas são variadíssimas. Você encontra tudo quanto é tipo de gente lá. Dos mais nerds aos mais boêmios. Dos mais intelectuais aos mais burros. Dos mais estranhos aos simplesmente normais. Há tantos estudantes que fica difícil arranjar um bom grupo de amigos lá. E é tanta gente estranha mesmo, acreditem. E nesse meio eu tive a sorte de, durante uma das aulas de IELP, encontrar o único grupo de pessoas que poderiam chegar ao patamar de bons amigos. O interessante é que aquelas outras pessoas que não estavam neste grupo foram se reunindo nos outros anos e no quarto semestre eu já conhecia todos os estudantes decentes do meu ano da FFLCH. Na minha opinião, é claro.

The Clock, 2007Enfim, com características semelhantes a filmes de amigos pops e seriados a la Friends nos reunimos, eu e meus bons amigos da Letras. E mesmo com os meus companheiros de outros lugares acho que eles foram os que mais me ensinaram sobre amizade e seus valores.

A amizade que aprendi por lá é uma amizade integral. Somos amigos em dias felizes, dias monótonos, dias tristes e dias de greve. Acompanhamos os outros em cada momento, alto ou baixo, da vida. E conseguimos, juntos, nos alegrar sempre. Somos amigos em todo tempo da vida, até nos estudos, nos trabalhos, nos desesperos e nas filas da Seção de Alunos. Somos amigos mesmo discordando em questões de política, fé, preferências, sexualidade, beleza, áreas linguísticas, música e literatura. Aliás, discordamos de muita coisa, mas sempre achamos um detalhe para concordar. Somos amigos mesmo quando concordamos e, assim, o assunto acaba. Somos amigos mesmo com uma cidade, um oceano ou uma vida inteira nos separando. Somos amigos no começo e no fim de todas as fases da vida.

O mais interessante é que nós, juntos, conseguimos ultrapassar as barreiras impostas pelas qualidades e defeitos (ou simplesmente costumes) de nós mesmos. Um detalhe que muitos amigos meus de outros lugares deixam escapar e, muitas vezes, pode minar uma amizade é extremamente valorizado por eles. Sou tagarela, sou muito sincera, e sou hiperativa. O que estes amigos me ensinaram em relação a isto? Eles sabem que podem me interromper a qualquer momento, sabem me interromper e sabem que, para conversar comigo, é preciso fazer isto. Interromper-me virou uma característica para nossa conversa ser… normal. E eles fazem isto com toda naturalidade do mundo. Também sabem relevar o que falo e entender que a sinceridade está exagerada. Sabem diminuir a carga das minhas falas para entender o que quero significar… já que eu sou crua e nua no que tenho a declarar. Também sabem ser calmos ou se animar com minha hiperatividade, acompanhando sempre o meu humor ou mudando-o naturalmente caso ele simplesmente não seja apropriado.

Enquanto milhões de colegas, companheiros e amigos meus se aborrecem, irritam, acham falsidade e julgam essas minhas atitudes, meus amigos uspianos tentam entender e se adaptam, fazendo de nossa convivência coesa e plena. Isso que é amizade pura e verdadeira.

Mesmo podendo não estudar mais com eles, não ir ao CA mais com eles, não passear pelo campus e nem pegar trânsito na Rebouças com sete pessoas dentro de um Celta… eu sei que ainda haverá esta mesma amizade. Choro, mesmo, pelo que posso perder, mas a amizade eu sei que não vai morrer. Haverá Vanillas, The Clocks e outros dias para manter isso. Haverá scraps, MSN talks, celulares. Haverá, apesar de tudo, amizade.

Obrigado, amigos, vcs fizeram valer a pena cada segundo. Estou morrendo de saudades…

(obs: não estou desprezando o valor de outras amizades, mas somente destacando estas. não leiam besteiras como estas nas entrelinhas, leiam somente amor.)