Um mês morando na Bahia. Morando, mesmo. Mas exatamente em Camaçari, próximo a Salvador, e depois na Federação, bairro soteropolitano (Congregação Batista lá no Alto da Bola, favela, digamos assim). Comi muito mal, tomei banho gelado e com pouquíssima água, dormi no chão com mais duas pessoas, voltei com milhares de picadas de insetos, um sotaque diferente e uma alma feliz. Mas a pergunta não quer calar: que raios você foi fazer lá, Jessica?
Bom, para responder vou ter de comentar mais uma vez (com certeza já devo ter falado pra você, mas todo mundo sempre esquece) que participo de um movimento estudantil diferente. É a ABU, ou ABUB formalmente: Aliança Bíblica Universitária. É um bando de cristãos de tudo (quando eu digo tudo, não meça a dimensão) quanto é tipo (do cristão underground punk, passando pelo neopentecostal e tradicionais, até católicos). Essa gente tão diferente compartilha de algo muito igual: a mesma fé, o mesmo Deus e a mesma Bíblia. Então nos encontramos nos campi de todo o mundo (por volta de 150 países) para discutir a Bíblia, fazer estudos e, principalmente, apresentar essa palavra aos universitários que discordam da gente (leia-se não-cristãos). E realmente há ateus, agnósticos e até muçulmanos que freqüentam as reuniões. É muito legal, principalmente por levar em consideração muita coisas que religiosos ignoram por aí e por não querer se impor como igrejinha no campus, entende?
Enfim, a ABU tem diversas atividades para preparar os universitários para o trabalho dentro desse meio. Há o incentivo à literatura (ABU editora), os treinamentos locais e regionais, o Curso de Férias (uma semana todo mês de julho) e, por fim, o IPL, que era onde eu queria chagar desde o começo da explicação.
O IPL, Instituto de Preparação de Líderes, é onde os estudantes ficam um mês (sempre janeiro) em treinamento e, no final, também numa parte prática. Nesta, partem para uma comunidade carente ou uma igreja para trabalhar e colocar em prática tudo que aprenderam numa liderança que é baseada no conceito de serviço (o contrário do que prega o mundo pós-moderno). Enfim, e este ano na turma de 2009 lá estava eu!
Aprendi, cresci, fiz amigos para a vida inteira, ganhei um mentor, senti a ausência de algumas pessoas, me chateei com a situação atual do mundo, fiquei mais pertinho de Deus. Simplesmente perfeito. O que eu aprendi? Vou tentar resumir: auto-negação, confiança total em Deus, necessidade de nova perspectiva, desnecessidade de receber aprovação dos outros, oração, perder o medo, ter mais fé, aceitar completamente o amor divino que se humilha por mim, trabalhar com mais perseverança, colocar tudo nas mãos divinas, amor, amar, compartilhar, aprender mais, servir mais, etc. Foi tanta coisa que fica difícil lembrar.
Mas dizem que também passeei. É, um dia tivemos tempo para ir a Salvador para (somente, snif) ver o Farol da Barra, o pôr-do-sol atrás do elevador Lacerda, conhecer um pouco do Pelourinho e ver o show de Luzes que teve no Terreiro de Jesus. Pouca coisa e muito rápido, mas deu um gostinho de turismo e pude reencontrar um velho bom amigo (que me fez dar umas mordidas no Acarajé… só duas!). Outro dia tivemos em média uma hora para ir a uma praia perto do CENTRE (onde estávamos em Camaçari). Foi só o gostinho da Bahia para deixar saudades no dia seguinte. Na parte prática tive a sorte de ser hospedada por uma mulher maravilhosa (Obrigada Iramaia!) que me levou com o restante do grupo para conhecer Itapuã… a noite! Mas tudo isso não deve ter somado nem todas as horas possíveis para conhecer Salvador em um dia. Mas essas foram horas de descanso!
O normal era acordar todo dia cedo, chegar nas exposições Bíblicas, palestras, orações, EBIs, etc. no pré-tempo (5 minutos antes). Aprender pra caramba e, por uma hora, silêncio total para refletir. O horário livre era pouco, mas deu pra conhecer as pessoas, chegar mais pertinho e fazer amigos de alma para sempre! E não é que esses períodos também serviam pra aprendizados gigantes? Obrigado iplenses e obreiros: vocês foram minha família, meu sustento, por um mês. Vão fazer mais que falta, vão fazer uma mudança tremenda em minha vida!
Voltei não muito bem de saúde, mas minha alma estava em bom estado! Cresci tanto que parece que não caibo mais neste corpo! E o que não cabe acaba transbordando e espero que as pessoas a minha volta vejam esses aprendizados a absorvam também! Voltei muito mais preparada para lidar com o ministério estudantil dentro deste movimento e fora. Bem como mais preparada para lidar com a vida. Com a religião. Com a Igreja. Com os amigos. Com os relacionamentos. Com Deus. Voltei com a certeza de que aquele que me criou usou-me, ensinou-me, aperfeiçoou-me. Mas, fica o medo: será que eu vou esquecer tudo isso que aprendi? Voltar a ser como antes?
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De volta a São Paulo as pessoas não sorriem, não ajudam as outras, não entendem esse amor tão grande e sem porque. De volta à vida real não pude evitar o susto, o medo e a infelicidade. Anseio pela perfeição, mas tenho de reconhecer a espera e as ações até lá. De volta a São Paulo, sou menina propaganda da ABU internacional (IFES) em uma carta e na página inicial…hahaha. [Se vc não me ver é por que já saiu do ar, não estranhe.] Mas, de volta a São Paulo, o que mais me assustou foi o descaso que as pessoas fazem com um preparo para o trabalho no movimento do tamanho que é o IPL. Querem saber como foi o meu, o que aprendi, o que fiz na favela pra ajudar, etc. e etc., mas não querem saber de ir no do ano que vem. O IPL nada mais é do que um momento de nossa vida em que Deus toca nela e diz: mude isto, melhore isto, invista nisto, faça isto, aprenda isto e VAI, e VOLTA. Por que ignoram estes momentos de treinamento?
Gostaria que vocês entendessem essa euforia toda. E que quem não acredita nessa minha fé, abra os olhos ao menos para ver e não criticar. E que quem não acha que cristãos devem fazer algo, procure agir mais no local que Deus te colocou (escola, universidade, trabalho, etc.). E que quem não acha que precisa de treinamento para agir, perceba que ainda somos humanos e pense nisso a tempo de se preparar para o ano que vem. Será que alguém entende?